Exposição de material militar no Rio tem desde picapes equipadas até tanques de guerra
Por Jason Vogel | Motor1
O amigo leitor já ouviu falar da LAAD? Trata-se da Latin America Aero & Defence Expo, maior e mais importante exposição da indústria bélica na América Latina. A edição 2025 está sendo realizada esta semana nos amplos pavilhões do Riocentro (centro de exposições no Rio de Janeiro) e reúne expositores de 28 países. O evento começou na segunda-feira e termina hoje, 4/4 — coincidentemente, o dia do 4x4.
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BAE System CV90-120 | Jason Vogel |
Apesar do “Latin America” no nome, a LAAD atrai expositores e visitantes de todo o planeta. Há empresas e militares dos Estados Unidos, Turquia, Grã-Bretanha, Irã, Índia, China, República Tcheca, países árabes…
São mais de 400 estandes, de mais de 20 segmentos da indústria de defesa e segurança, apresentando suas inovações. Um civil leigo no assunto fica impressionado com o tanto de companhias especializadas em material bélico, bem como no dinheiro que isso movimenta.
Cada país manda seus grupos de representantes do exército, da marinha e da aeronáutica para conhecer as novidades e, quem sabe, fechar negócios. Além disso, cada estado do Brasil envia oficiais de suas polícias militares.
É muita gente. O clima nos cinco pavilhões do Riocentro lembra bastante o dos antigos salões do automóvel, a começar pelas enormes filas na entrada — só que boa parte da multidão é formada por grupos fardados.
Falando em salão do automóvel, há veículos de todos os tipos em exposição. Das picapes equipadas para serviços públicos aos tanques de guerra, um visitante que gosta de carros não fica entediado. Vamos a algumas das atrações da exposição.
Revo
Na mesma semana em que está sendo apresentado pela GWM à imprensa, o Tank 300 já faz uma aparição no Riocentro como carro de serviço. O modelo é uma das novidades no estande da Revo, líder nacional na transformação/adaptação de veículos para diferentes finalidades de uso.![]() |
Tank 300 | Jason Vogel |
Para a LAAD, esse Tank 300 recebeu para-choques de aço na dianteira e na traseira, quebra-mato, guincho elétrico para até 5,4 toneladas, estribos, rack com um cesto (para lançamento de drone), revestimento do piso em PVC, forração de material sintético nos bancos, rádio-comunicador Motorola Apx 2500 com antena, sirenes e tudo o que havia de luzes no mostruário da empresa. Foi feito ainda um envelopamento duplo: no lado direito com padrão tipo batalhão de choque e, no lado esquerdo, de patrulha ambiental.
Em suas duas instalações no interior paulista (Sorocaba e Tatuí), a Revo tem capacidade para fazer 2.400 transformações por mês. Recentemente, a empresa anunciou uma fusão com a blindadora Carbon.
Engesig
Com sede em Mogi das Cruzes (SP), a Engesig é outra empresa forte no ramo das adaptações de carros para uso como ambulância, viaturas de polícia e do corpo de bombeiros. Sua linha automotiva inclui sinalização visual, acústica (buzinas e sirenes) além de rádios.![]() |
Fiat Titano Engesig | Jason Vogel |
Na LAAD, a Engesig expõe, entre outros veículos, uma picape Fiat Titano totalmente militarizada, com direito a um robusto para-choque de metal montado sobre o original, guincho, farol de aproximação (blackout), protetores dos faróis originais, snorkel, estribos e uma cobertura na caçamba, além da pintura verde-oliva. Outro modelo inusitado no estande é uma picape JAC Hunter adaptada para transporte de tropas.
Raytec
Logo adiante, encontramos mais uma JAC Hunter transformada em viatura policial — desta vez, adesivada com um padrão de camuflagem verde e preto. O pacote montado pela Raytec (empresa de transformação com sede em Lauro de Freitas, na Bahia) inclui luzes auxiliares na grade, acima do para-brisa, na tampa traseira, no vidro traseiro e até nos estribos.![]() |
JAC Hunter Raytec | Jason Vogel |
Temos ainda para-choques de impulsão, guincho com cabo de 30 metros operado por controle remoto, piso em PVC aproveitando a fixação original do carpete e um sistema Starlink com duas antenas no teto.
Flash Engenharia
Um dos carros levados à LAAD pela empresa de transformação Flash, de Sorocaba (SP), é uma Fiat Titano toda equipada, com direito a snorkel. Mas o que mais chamou nossa atenção foi a pintura bege areia até na grade da picape, além das rodas pretas. E não é que conseguiram dar um visual invocado à picape da Fiat?A Flash também está preparando as Titano azuis e brancas que entrarão em serviço na Polícia Militar do Rio. Os protótipos ficaram prontos recentemente e os novos carros não devem demorar a entrar em serviço.
Ford Pro
A divisão de veículos comerciais da Ford expõe na LAAD 2025 quatro veículos modificados pelas empresas Flash, Raytec e Engesig.A Transit de Resgate, montada sobre um modelo chassi-cabine L4H1, é uma ambulância de suporte avançado à vida para uso dos bombeiros no suporte a rodovias e atendimento de ocorrências com mais de um paciente.
Há ainda duas Ranger. Uma é para Defesa Civil, montada sobre a versão XLS, com cerca de 25 itens especiais para operações de busca e resgate, incluindo equipamento de mergulho, ferramentas de salvamento e combate ao fogo, além de câmeras, canil e drone para identificação de situação.
A outra é para a Polícia Rodoviária Federal, com para-choque de impulsão, estribos, sinalização visual, rádio, protetores de bancos e barras de proteção na caçamba. Esta Ranger de patrulha também é equipada com capota e cela (com ar-condicionado) na caçamba, além de câmeras e sinalização.
Já o Territory de polícia (transformado pela Flash) é projetado para uso em operações de patrulha e transporte de detentos, com acessórios como quebra-mato, estribos, sinalização visual e nichos para o transporte de armas.
Mitsubishi
Ainda no segmento das picapes transformadas, há na LAAD uma picape Triton GL MT (a mais básica da linha, voltada para uso corporativo) com nada menos que uma torre de celular na caçamba. Trata-se de uma antena omnidirecional com 12 metros de altura e até 5 km de raio de alcance. A picape traz ainda um gerador para manter a estação funcionando.Feita em parceria com a empresa de telecomunicação e a Nokia, essa torre móvel pode servir tanto a forças policiais quanto ao setor do agro, proporcionando comunicação temporária em áreas distantes de qualquer sinal de celular.
IDV Guaicuru
O tempo dos velhos Land Rover Defender ficou para trás... O Exército Brasileiro hoje anda de Guaicuru, um 4x4 produzido pela IDV (sigla de Iveco Defence Vehicles) em Sete Lagoas, Minas Gerais.![]() |
LMV-BR Guaicurus | Jason Vogel |
Com 4,86 m de comprimento, 3,23 m de entre-eixos e 2,10 m de altura, o Guaicuru é maior que o antigo Defender 110. Além disso, tem blindagem nível 2 (norma STANAG-Otan), que suporta disparos de calibre 7,62, vulgo “ponto trinta”.
A blindagem faz com que o jipe mineiro pese entre 6,5 e 8 toneladas. O motor de seis cilindros em linha e 220 cv é, possivelmente, uma versão vitaminada do que é usado nos veículos comerciais Iveco Daily. O modelo tem câmbio automático de oito marchas e tração 4x4 permanente.
Há espaço para cinco tripulantes. Em tempo: os guaicurus eram guerreiros indígenas que utilizavam cavalos e viviam na região Centro-Oeste do Brasil. Como militar adora uma sigla, o jipe ítalo-mineiro se chama oficialmente LMV-BR 2 (sigla de “Light Multirole Vehicle”, ou Veículo Multitarefa Leve). Além do Guaicuru, a IDV também levou à LAAD um chassi usado para treinamento de mecânicos militares.
Tatra Excalibur Army
Vamos sair dos carros comuns adaptados para algo mais pesado. De cara, fomos atraídos pelo círculo vermelho do logotipo da Tatra brilhando sobre um estande do pavilhão 4. Na década de 50, essa fabricante da (então) Tchecoslováquia teve alguma presença no Brasil por meio do representante Motokov. Assim chegaram aqui os revolucionários automóveis Tatraplan e alguns poucos caminhões Tatra 111, com motor V12 refrigerado a ar e tração 6x6. Todos eram projetos do genial engenheiro Hans Ledwinka.![]() |
Tatra Patriot II | Jason Vogel |
Um salto de 70 anos nessa história e estamos na LAAD diante do blindado 4x4 Patriot II, feito pela Tatra em conjunto com a Excalibur Army, empresa da República Tcheca especializada em veículos militares. O modelo exposto tem capacidade para seis ou oito tripulantes. Versátil, o modelo pode servir para conter distúrbios urbanos e até como carro de combate ao fogo. A sensação na cabine é semelhante à de estar dentro de um cofre de banco com a porta trancada — se você sofre de claustrofobia, evite.
Apesar de seu peso elevado (de 13,5 a 18 toneladas, dependendo da configuração), esse caveirão tcheco de 442 cv pode atingir a máxima de 110 km/h e encarar rampas de 45º. Seu tanque de diesel garante 600 km de autonomia. A suspensão é a ar. Como bom Tatra, o Patriot II é movido por um V8 refrigerado a ar.
IAG RILA Xtreme MRAP
O International Armored Group (IAG) é uma companhia dos Emirados Árabes especializada em veículos blindados que vão desde sedãs de passeio até modelos militares. Um de seus modelos na LAAD é o O Rila Xtreme MRAP, um cruzamento de caveirão com micro-ônibus.![]() |
RILA Xtreme MRAP | Jason Vogel |
O veículo tem capacidade para transportar 10 soldados totalmente equipados, acomodados em assentos com atenuação de impacto. Falando em impacto, a blindagem foi testada e certificada para resistir a 100 quilos de TNT detonados na lateral do veículo. Além disso, consegue proteger contra explosões de 10 kg de TNT sob a roda dianteira esquerda, sob a carroceria (lado do copiloto) e sob a parte traseira do veículo.
O modelo é equipado com um motor a diesel Cummins EURO III, que rende 375 cv e 158 kgfm de torque. Sua transmissão é automática: uma caixa Allison de seis marchas. Um comando no painel permite ajuste automático da pressão dos pneus para quatro diferentes tipos de terreno.
A velocidade máxima é de 110 km/h. O tanque tem capacidade para 200 litros de diesel, garantindo uma autonomia de 600 km.
SCORPION 4x4 MRAP
Falando em caveirão, a Polícia Federal brasileira expõe um de seus Scorpion, viatura blindada produzida pela companhia Streit Group, do emirado árabe de Ras Al Khaimah.O Scorpion 4x4 MRAP (sigla de “Mine-Resistant Ambush Protected”, ou resistente a minas e protegido contra emboscadas) foi projetado para equipes de resposta tática e pode ser configurado para diversas aplicações militares. Seu design avançado, com fundo em formato de V, proporciona um bom vão livre do solo e um raio de giro reduzido, garantindo excelente capacidade off-road.
O Scorpion é totalmente blindado de acordo com o nível 3 da norma STANAG (Standardization Agreement, o acordo de padronização da Otan), sendo capaz de resistir a disparos de fuzil calibre 7,62 x 51mm.
Seu sistema de tração, a suspensão independente nos dois eixos e os freios foram testados para suportar o peso bruto do veículo (11 toneladas) em qualquer tipo de terreno. Seus pneus podem rodar muitos quilômetros depois de serem perfurados. Há ainda câmeras de 360º, sistemas de extinção de incêndios e lançadores de granadas.
Com motor Cummins ISBE de seis cilindros e 6.7 litros de 304 cv e 112 kgfm (a 1.500 rpm), o Scorpion pode rodar a 105 km/h, cruzar trechos alagados com 1,5 m de profundidade e atingir uma distância máxima de 800 km.
BAE Hägglunds CV90-120
Fundada na Suécia em 1898, a Hägglund & Söner dedicava-se inicialmente a fabricar móveis. Com o passar dos anos, diversificou a produção, fazendo ônibus, material ferroviário, guindastes, veículos militares e até aviões.Em 1988, porém, a empresa foi “esquartejada”. Sua divisão de viaturas militares foi vendida à britânica Alvis Vickers PLC — empresa que mais tarde foi adquirida pela BAE Systems (uma divisão da British Aerospace). Tudo isso é para explicar por que uma companhia inglesa famosa por seus aviões hoje produz blindados na Suécia.
Pois bem: a BAE Systems trouxe à LAAD um veículo compacto de combate de infantaria chamado CV90-120. Esse CV90 se refere ao Combat Vehicle 90, fabricado desde 1994 — e que normalmente usa um canhão de 30 ou 40 mm.
A novidade é que agora essa plataforma relativamente compacta foi equipada com um canhão de 120 mm — com capacidade de tiro digna de um blindado médio (o “Kampfpanzer” Leopard 1 usado pelo Exército Brasileiro é bem maior que o CV90 mas tem canhão de 105 mm).
Mais baixo que um tanque convencional, o CV90-120 ganha em estabilidade e discrição perante os olhos inimigos. Além disso, pode ser pilotado com a escotilha completamente fechada. Sua capacidade de fogo é a mesma de um carro de combate pesado, mas em uma plataforma mais compacta e da metade do peso (não se iluda: “metade do peso” em um blindado desses pode significar 38 toneladas). Mesmo em movimento, é possível disparar seu canhão.
O CV90-120 se movimenta sobre lagartas em vez de pneus, ganhando mobilidade em terrenos enlameados. A esteira, porém, é de borracha, para não danificar estradas asfaltadas.
Nas laterais, há peças de blindagem para oferecer proteção contra mísseis anticarro. O acesso dos tripulantes se dá por uma porta na traseira. O veículo é equipado com um motor Scania V8 a diesel (DI16) com potência de até 1.000 cv e uma transmissão automática Allison X-300-5.
A BAE Systems está propondo produzir o modelo no Brasil e já tem uma parceria com a Iveco, que produz os blindados de combate Guarani e os jipes Guaicuru.
A Joaninha
Nossa “faixa bônus” é uma viatura clássica: um Fusca da Secretaria Estadual de Polícia Civil do Rio de Janeiro (SEPOL). Até a década de 80, essas “joaninhas” eram muito usadas em patrulhamento nas ruas brasileiras mas, com o passar dos anos, deram vez a modelos mais modernos.O carro exposto na LAAD foi um dos últimos Fuscas a entrar em serviço no Rio. Trata-se de um modelo Itamar, ano 1996, que, depois de muitos anos em atividade, passou por uma restauração e hoje é preservado na Cidade da Polícia, no Jacaré, Zona Norte da capital. Atualmente, o Fusquinha sai apenas em ocasiões especiais para a corporação.